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Mostrando postagens de 2020

Anestesia musical

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  (Foto retirada do facebook do artista - Rodrigo Alarcon)     Acho engraçado como nós temos dificuldade de falar dos nossos sentimentos. Outro dia uma amiga se espantou quando eu disse que não estava bem, pois - da maneira como nossas relações se constituem na era virtual, se espera que as pessoas estejam sempre bem (o que é impossível) porque nos acostumamos a mentir, ou ao menos "omitir" para manter uma cordialidade. Entretanto, ela se admirou da minha postura em ser sincero; não significa que precisemos que as outras pessoas se compadeçam ou algo do tipo, mas que saibam que apesar de tudo estamos ali.     Nos acostumamos a responder "tudo bem", mesmo não estando nada bem. De modo a sublimar essas angústias que estão sempre presentes mas que não falamos sobre, nós usamos a música como um artifício, seja qual gênero for, mas me parece que em geral as pessoas escutam músicas condizentes com seus humores. Cantamos as letras que falam verdades que no dia a dia ev...

Algumas notas sobre nada

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  Paulo A. T. Freire (Filosofia UFBA, PET-Filosofia)      O "Livro sobre nada" é talvez a obra mais conhecida de Manoel de Barros e foi por onde decidi começar a conhecê-lo. O autor é um gigante da poesia brasileira e faz jus ao valor da sua obra. Os poemas contidos neste livro são dispostos em quatro partes: Arte de infantilizar formigas; Desejar ser; O livro sobre nada; Os Outros: o melhor de mim sou Eles. O que percebemos ao longo dessas quatro partes é que o autor versa muito, de maneira geral, sobre a infância e os sentidos das coisas. Me pareceu que uma de suas "intenções" é o desinteresse, ou seja, falar das coisas cotidianas sem grandes pretensões de produção de sentidos complexos. Ser simples e ser junto as coisas, com os outros e em relação a natureza, parece ser por aí que se envereda Manoel de Barros quando propõe um livro sobre nada e ao mesmo tempo sobre tantas coisas que passam despercebidas.      A meninice parece interessar o autor, um...

Do eterno ao imutável: reflexões sobre a amizade

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Paulo A. T. Freire (Filosofia UFBA, PET-Filosofia) A amizade é uma relação estabelecida entre pessoas que se respeitam. Não vejo como falar da amizade como algo fixo, marcado, estático; as pessoas não decidem ser amigas, podem decidir romper a amizade, mas a amizade enquanto uma relação me parece ser uma construção, ou seja, ela vai se desenvolvendo ao longo de conversas, de gostos em comum, de interesses, percepções, etc. É realmente um objeto difícil de discutir, pois cada pessoa pode ter um modo de estabelecer relações duráveis. Algumas são por conveniência, como, por exemplo, por estudar juntos e frequentar os mesmos lugares, outras moram distantes mas compartilham gostos e percepções e por aí vai. Muita gente crê que a amizade também tem a ver com o "bater do santo", quando seu "espírito" (pensando aqui como maneira de lidar com as coisas) combina com o da sua amizade. Me parece que sempre tem uma série de elementos que influenciam para a composição dessa relaç...

Estrangeiro, estranho ou indiferente?

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Estrangeiro, estranho ou indiferente? Paulo A. T. Freire (Filosofia UFBA, PET-Filosofia) Meursault é o personagem central e narrador de O estrangeiro , obra do filósofo Albert Camus. Na história acompanhamos a vida de Meursault desde a morte de sua mãe, a qual o personagem anuncia de maneira bastante indiferente já na primeira linha do romance, até seu julgamento, depois dele ter matado um Árabe na praia. A obra tem duas partes, sendo a primeira da morte da mãe até o assassinato do Árabe e a segunda da prisão até o julgamento de Meursault. Ao longo do romance uma coisa me chamou muita atenção, a saber, como Camus consegue intercalar bem os diálogos e a narrativa, de modo que acompanhamos a história como se fizéssemos parte da consciência do personagem. Entendendo consciência aqui não num sentido “moral” mas fenomenológico, ou seja, acompanhamos as descrições daqueles objetos aos quais o personagem (ou a consciência) se dirige a cada vez. Um ponto negativo que me fez não gostar tant...

A poética dura realidade: uma leitura de Terra sonâmbula

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A poética dura realidade: uma leitura de Terra sonâmbula paulo freire (Filosofia UFBA, PET-Filosofia) O que se pode entender quando se diz que uma terra é “sonâmbula”? Mia Couto abre o façanhoso Terra sonâmbula com três “citações” que remetem a algo que será, em certa medida, desenvolvido ao longo do romance, uma compreensão sobre as crenças, as ações e as relações, dos seres humanos entre si, entre as culturas e com a terra, esta que “anda” enquanto nós dormimos. Nesta publicação apontarei alguns trechos do romance que foram mais marcantes durante a leitura desta obra que é difícil e tensa mas que nos ensina muito com sua poética. Na página 16 está escrito algo que explica, em poucas palavras, muito das críticas que a obra nos fornece: “A guerra é uma cobra que usa os nossos próprios dentes para nos morder. Seu veneno circulava agora em todos os rios da nossa alma. De dia já não saíamos, de noite não sonhávamos. O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos.” “o chão deste mundo...

Qual a importância da identidade para a participação política?

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Qual a importância da identidade para a participação política? Paulo A. T. Freire (Filosofia UFBA, PET-Filosofia) Partir dessa questão não significa pensar a luta anticapitalista desconsiderando a "centralidade do trabalho" pura e simplesmente. Significa que uma luta para romper com o modo de vida da propriedade privada na modernidade parte também de considerar que a subjetividade dos indivíduos modernos está demarcada pelo capitalismo e precisa ser mudada a partir da compreensão da interseccionalidade. Propriedade privada Por que alguém participaria de uma luta política? Me parece que - compreendendo a política como uma atividade de confronto de interesses - alguém participaria de uma luta política caso tivesse algum interesse em jogo. No caso da luta da classe trabalhadora esse “interesse” se encontraria em várias questões, mas uma das principais é o problema da propriedade privada, pois por meio dela as classes dominantes se apropriam do fruto do trabalho d...

A CORDIALIDADE BRASILEIRA ENQUANTO PROBLEMA MORAL E POLÍTICO

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A CORDIALIDADE BRASILEIRA ENQUANTO PROBLEMA MORAL E POLÍTICO  Paulo A. T. Freire (Filosofia UFBA, PET-Filosofia) Quem sabe dos meus interesses por problemas morais e está a par do meu projeto de superação moral da sociedade contemporânea do século XXI (utilitarista), pode compreender de maneira mais fácil o porquê da minha preocupação com a “cordialidade brasileira”, mas de forma alguma as pessoas que se encontram fora deste grupo estão prejudicadas na leitura acerca disso. Para assegurar e deixar isso de maneira mais explícita, posso dizer que de maneira geral o problema que surge é em relação à hipocrisia. Isso quer dizer somente que concordo com Sérgio Buarque de Holanda quando ele coloca as nossas relações cordiais como hipócritas, como relações que mascaram os conflitos e os problemas sócio-políticos-culturais da realidade brasileira, como, por exemplo, o racismo. O patriarcalismo é uma marca da cordialidade brasileira, pois a base da brasilidade está na família patriarca...

Resumo do livro Claros e Escuros: Identidade, povo, mídia e cotas no Brasil de Muniz Sodré

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 De uma forma bem detalhada Muniz Sodré, sociólogo baiano, busca uma proposta de discussão sobre a questão identitária no Brasil. A partir da ideia de identidade ele discute, trazendo diversos autores - do porte de Habermas, Lacan, Heidegger, Elias, Gilberto Freyre, etc. - para dialogar com amplas perspectivas sobre como podemos falar de uma "identidade nacional"; mostrando ele que o que se compreende quando se fala de identidade não passa de uma ilusão sustentada por algo que é, no fundo, uma "identificação" (no sentido de "traços identitários") baseada na cultura, moral, racionalidade, religiosidade, etc.; de modo geral não se trata de algo fixo que permita identificar uma nação ou um povo.          No que diz respeito à língua, há variações e diversidade muito ampla em seu uso, por exemplo. Assim, Sodré nos mostra que a busca irrefreável pelo estabelecimento de uma identidade nos prova de maneira singular que não a temos de modo evide...