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Porvir

Dei um grito. Rompante. O homem olhou para trás, abismei. Pedi desculpas. Ouvi alguém comentando baixinho que era capaz de eu estar num mundo à parte. Meus olhos correram lágrimas e meu coração começou a desacelerar, apesar de eu ainda estar ofegante. No horizonte, as restelhas de sol tingiam as nuvens de um rosa profundo. O homem apertou os lábios e abaixou a cabeça, como se dizendo que entendia minha situação, quando constatou-se do meu abismo. Eu podia jurar que ouvi aquele sujeito, que se colocara novamente em contemplação, com uma latinha de cerveja à meia altura na mão esquerda, dizer pobre. Não senti pena de mim, apenas entendi que era capaz de eu nunca mais ver sombra de Almiro. O velho ditado dizia: quem fica morre na areia, quem vai não se arrepende. Talvez eu devesse ter escolhido também partir.  se escolhas houvesse As pessoas que deram atenção não perduraram, seguiam contemplando o horizonte. Nem eram tantas, mas o suficiente para encher uma balsa peq...

Anestesia musical

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  (Foto retirada do facebook do artista - Rodrigo Alarcon)     Acho engraçado como nós temos dificuldade de falar dos nossos sentimentos. Outro dia uma amiga se espantou quando eu disse que não estava bem, pois - da maneira como nossas relações se constituem na era virtual, se espera que as pessoas estejam sempre bem (o que é impossível) porque nos acostumamos a mentir, ou ao menos "omitir" para manter uma cordialidade. Entretanto, ela se admirou da minha postura em ser sincero; não significa que precisemos que as outras pessoas se compadeçam ou algo do tipo, mas que saibam que apesar de tudo estamos ali.     Nos acostumamos a responder "tudo bem", mesmo não estando nada bem. De modo a sublimar essas angústias que estão sempre presentes mas que não falamos sobre, nós usamos a música como um artifício, seja qual gênero for, mas me parece que em geral as pessoas escutam músicas condizentes com seus humores. Cantamos as letras que falam verdades que no dia a dia ev...

Algumas notas sobre nada

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  Paulo A. T. Freire (Filosofia UFBA, PET-Filosofia)      O "Livro sobre nada" é talvez a obra mais conhecida de Manoel de Barros e foi por onde decidi começar a conhecê-lo. O autor é um gigante da poesia brasileira e faz jus ao valor da sua obra. Os poemas contidos neste livro são dispostos em quatro partes: Arte de infantilizar formigas; Desejar ser; O livro sobre nada; Os Outros: o melhor de mim sou Eles. O que percebemos ao longo dessas quatro partes é que o autor versa muito, de maneira geral, sobre a infância e os sentidos das coisas. Me pareceu que uma de suas "intenções" é o desinteresse, ou seja, falar das coisas cotidianas sem grandes pretensões de produção de sentidos complexos. Ser simples e ser junto as coisas, com os outros e em relação a natureza, parece ser por aí que se envereda Manoel de Barros quando propõe um livro sobre nada e ao mesmo tempo sobre tantas coisas que passam despercebidas.      A meninice parece interessar o autor, um...

Do eterno ao imutável: reflexões sobre a amizade

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Paulo A. T. Freire (Filosofia UFBA, PET-Filosofia) A amizade é uma relação estabelecida entre pessoas que se respeitam. Não vejo como falar da amizade como algo fixo, marcado, estático; as pessoas não decidem ser amigas, podem decidir romper a amizade, mas a amizade enquanto uma relação me parece ser uma construção, ou seja, ela vai se desenvolvendo ao longo de conversas, de gostos em comum, de interesses, percepções, etc. É realmente um objeto difícil de discutir, pois cada pessoa pode ter um modo de estabelecer relações duráveis. Algumas são por conveniência, como, por exemplo, por estudar juntos e frequentar os mesmos lugares, outras moram distantes mas compartilham gostos e percepções e por aí vai. Muita gente crê que a amizade também tem a ver com o "bater do santo", quando seu "espírito" (pensando aqui como maneira de lidar com as coisas) combina com o da sua amizade. Me parece que sempre tem uma série de elementos que influenciam para a composição dessa relaç...

Estrangeiro, estranho ou indiferente?

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Estrangeiro, estranho ou indiferente? Paulo A. T. Freire (Filosofia UFBA, PET-Filosofia) Meursault é o personagem central e narrador de O estrangeiro , obra do filósofo Albert Camus. Na história acompanhamos a vida de Meursault desde a morte de sua mãe, a qual o personagem anuncia de maneira bastante indiferente já na primeira linha do romance, até seu julgamento, depois dele ter matado um Árabe na praia. A obra tem duas partes, sendo a primeira da morte da mãe até o assassinato do Árabe e a segunda da prisão até o julgamento de Meursault. Ao longo do romance uma coisa me chamou muita atenção, a saber, como Camus consegue intercalar bem os diálogos e a narrativa, de modo que acompanhamos a história como se fizéssemos parte da consciência do personagem. Entendendo consciência aqui não num sentido “moral” mas fenomenológico, ou seja, acompanhamos as descrições daqueles objetos aos quais o personagem (ou a consciência) se dirige a cada vez. Um ponto negativo que me fez não gostar tant...

A poética dura realidade: uma leitura de Terra sonâmbula

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A poética dura realidade: uma leitura de Terra sonâmbula paulo freire (Filosofia UFBA, PET-Filosofia) O que se pode entender quando se diz que uma terra é “sonâmbula”? Mia Couto abre o façanhoso Terra sonâmbula com três “citações” que remetem a algo que será, em certa medida, desenvolvido ao longo do romance, uma compreensão sobre as crenças, as ações e as relações, dos seres humanos entre si, entre as culturas e com a terra, esta que “anda” enquanto nós dormimos. Nesta publicação apontarei alguns trechos do romance que foram mais marcantes durante a leitura desta obra que é difícil e tensa mas que nos ensina muito com sua poética. Na página 16 está escrito algo que explica, em poucas palavras, muito das críticas que a obra nos fornece: “A guerra é uma cobra que usa os nossos próprios dentes para nos morder. Seu veneno circulava agora em todos os rios da nossa alma. De dia já não saíamos, de noite não sonhávamos. O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos.” “o chão deste mundo...

Qual a importância da identidade para a participação política?

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Qual a importância da identidade para a participação política? Paulo A. T. Freire (Filosofia UFBA, PET-Filosofia) Partir dessa questão não significa pensar a luta anticapitalista desconsiderando a "centralidade do trabalho" pura e simplesmente. Significa que uma luta para romper com o modo de vida da propriedade privada na modernidade parte também de considerar que a subjetividade dos indivíduos modernos está demarcada pelo capitalismo e precisa ser mudada a partir da compreensão da interseccionalidade. Propriedade privada Por que alguém participaria de uma luta política? Me parece que - compreendendo a política como uma atividade de confronto de interesses - alguém participaria de uma luta política caso tivesse algum interesse em jogo. No caso da luta da classe trabalhadora esse “interesse” se encontraria em várias questões, mas uma das principais é o problema da propriedade privada, pois por meio dela as classes dominantes se apropriam do fruto do trabalho d...