A poética dura realidade: uma leitura de Terra sonâmbula

A poética dura realidade: uma leitura de Terra sonâmbula
paulo freire (Filosofia UFBA, PET-Filosofia)
O que se pode entender quando se diz que uma terra é “sonâmbula”? Mia Couto abre o façanhoso Terra sonâmbula com três “citações” que remetem a algo que será, em certa medida, desenvolvido ao longo do romance, uma compreensão sobre as crenças, as ações e as relações, dos seres humanos entre si, entre as culturas e com a terra, esta que “anda” enquanto nós dormimos. Nesta publicação apontarei alguns trechos do romance que foram mais marcantes durante a leitura desta obra que é difícil e tensa mas que nos ensina muito com sua poética.
Na página 16 está escrito algo que explica, em poucas palavras, muito das críticas que a obra nos fornece: “A guerra é uma cobra que usa os nossos próprios dentes para nos morder. Seu veneno circulava agora em todos os rios da nossa alma. De dia já não saíamos, de noite não sonhávamos. O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos.”
“o chão deste mundo é o teto de um outro mundo mais por baixo. E sucessivamente, até ao centro, onde mora o primeiro dos mortos.” (p. 40)
“O que é perder-se, ao fim ao cabo? Muita gente, acreditando ter a certeira direção, nasce já equivocada.” (p. 87)
“A morte, afinal, é uma corda que nos amarra as veias. O nó está lá desde que nascemos. O tempo vai esticando as pontas da corda, nos estancando pouco a pouco.” (p. 118)
“Nosso mundo de então era feito de miséria e fome. O que valia o amor, a amizade? O único valor, nos dias atuais, é sobreviver.” (p. 151)
“O destino o que é senão um embreagado conduzido por um cego?” (p. 196)
Mia couto nos fornece ferramentas para pensarmos na fome, na miséria, no luto, na morte, na dor, na perda, no engano, etc., mas o que mais me chama atenção na sua escrita, falando do Terra sonâmbula, é a capacidade que ele tem de sublinhar várias questões com a “fantasia”, como, por exemplo, uma fuga da realidade, a possibilidade de negação do sofrimento por meio da leitura. Uma verdadeira sublimação das angústias de quem vive num tempo e numa terra arrasados e pode, por meio dos “cadernos de Kindzu” negar em certa medida sua própria realidade para viver uma outra. Ponto que se expressa de maneira mais literal quando uma das personagens sugere um jogo onde interpretariam os “papéis” das personagens dos cadernos. Fato que me deixou ainda mais curioso quanto a mensagem que Couto quer passar é que as histórias de Kindzu terminam quando finalizamos o livro, que é também na leitura do último caderno. Mas e a outra história? Talvez nem exista, seja só um pretexto para a fantasia poética e crítica de Mia Couto.
Como disse a uma amiga: Eu gosto de ler em voz alta. Nas últimas linhas a voz falhou, foi encoberta pelas lágrimas!
Referência
COUTO, Mia. Terra sonâmbula. - 1ª ed. - São Paulo : Companhia de bolso, 2015.
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