Estrangeiro, estranho ou indiferente?
Estrangeiro, estranho ou indiferente?
Paulo A. T. Freire (Filosofia UFBA, PET-Filosofia)
Meursault é o personagem central e narrador de O estrangeiro, obra do filósofo Albert Camus. Na história acompanhamos a vida de Meursault desde a morte de sua mãe, a qual o personagem anuncia de maneira bastante indiferente já na primeira linha do romance, até seu julgamento, depois dele ter matado um Árabe na praia.
A obra tem duas partes, sendo a primeira da morte da mãe até o assassinato do Árabe e a segunda da prisão até o julgamento de Meursault. Ao longo do romance uma coisa me chamou muita atenção, a saber, como Camus consegue intercalar bem os diálogos e a narrativa, de modo que acompanhamos a história como se fizéssemos parte da consciência do personagem. Entendendo consciência aqui não num sentido “moral” mas fenomenológico, ou seja, acompanhamos as descrições daqueles objetos aos quais o personagem (ou a consciência) se dirige a cada vez.
Um ponto negativo que me fez não gostar tanto da primeira parte do romance na minha primeira leitura foi a coisa do sol. Camus consegue passar bem o desconforto do personagem em relação ao sol, mas em alguns momentos da primeira parte me parece um pouco exagerado, cansativo. Contudo, o final da primeira parte é impactante, a cena - muito bem descrita - da situação com o Árabe na praia é algo que realmente abala o/a leitor/a.
A obra tem personagens interessantes, como o velho Salamano e sua relação de amor e ódio com seu também velho cachorro. Mas esses personagens não recebem muita atenção, talvez por estarmos acompanhando da perspectiva do Meursault, que é um sujeito bastante indiferente e apático, a ponto de dizer “tanto faz” para um pedido de casamento.
A segunda parte tem elementos mais bem desenvolvidos e instigantes. Destaco uma estória que aparece num recorte de jornal que Meursault encontra em sua cena, onde dizia de um rapaz que foi assassinado (por “engano”) pela mãe e pela irmã, que ao descobrirem quem era o morto cuidaram rapidamente de tirar também a própria vida.
Todo o processo de julgamento de Meursault e a insistência, por um lado, da justiça de tentar fazer com que ele diga os motivos e, por outro lado, a indiferença de Meursault a ponto de dizer que matou o Árabe “por causa do sol” é bastante curioso e nos faz questionar várias coisas acerca da humanidade.
Provavelmente relerei este romance em breve e está mais do que recomendado a quem se interessar por leituras sobre a condição e sentidos da humanidade.

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