Qual a importância da identidade para a participação política?
Qual a importância da identidade para a participação política?
Paulo A. T. Freire (Filosofia UFBA, PET-Filosofia)
Partir dessa questão não significa pensar a luta anticapitalista desconsiderando a "centralidade do trabalho" pura e simplesmente. Significa que uma luta para romper com o modo de vida da propriedade privada na modernidade parte também de considerar que a subjetividade dos indivíduos modernos está demarcada pelo capitalismo e precisa ser mudada a partir da compreensão da interseccionalidade.
Propriedade privada
Por que alguém participaria de uma luta política? Me parece que - compreendendo a política como uma atividade de confronto de interesses - alguém participaria de uma luta política caso tivesse algum interesse em jogo. No caso da luta da classe trabalhadora esse “interesse” se encontraria em várias questões, mas uma das principais é o problema da propriedade privada, pois por meio dela as classes dominantes se apropriam do fruto do trabalho da classe trabalhadora.
Essa relação se dá por conta da lógica capitalista, onde o indivíduo trabalhador só é “dono” de sua força de trabalho, mas refém dos meios de produção. O trabalhador não detém os meios pelos quais ele vai usar sua força de trabalho para explorar e transformar a natureza, gerando o “produto”, que é trocado por “valor de troca”, o que chamamos de dinheiro.
O trabalho alienado, em parte, consiste nesse distanciamento que o trabalhador tem do fruto do seu trabalho, pois, por ser refém dessa lógica que gera riqueza para os mais ricos, ele não tem domínio sobre aquilo que produz, “vende” sua força de trabalho em troca de dinheiro. A luta dessa classe seria - estaria “identificada” nisso - uma luta pelos meios de produção, pela possibilidade de reverter a lógica alienante da propriedade privada dos meios de produção.
Crítica feminista negra a partir de Davis.
A partir de Angela Davis podemos pensar uma crítica feminista dentro da própria luta anticapitalista. Davis nos leva a pensar quem está na base da sociedade, pois, se de uma lado há um grupo hegemônico que é extremamente favorecido e explorador, deve haver, do outro lado, alguém que está no pólo oposto, que está na base da sociedade, que é oprimida e que tem que ser levada em conta na construção da luta.
Claro que há outras motivações para a posição da Davis (crítica ao feminismo “hegemônico”), porém, é mais oportuno levar em consideração a crítica à luta anticapitalista. Não significa dizer que Davis critica a posição da classe trabalhadora, mas sim que ela vê a mulher negra como estando nesse lugar de “base” de sustentação da sociedade e que sofre opressão em vários aspectos, por ser pobre (classe trabalhadora), por ser mulher, por ser negra, etc. Daí, podemos ver, ou introduzir, uma questão, a saber: se as opressões vem em vários sentidos, por que a luta tem que ser somente contra o modelo de sociedade capitalista, nos moldes da "centralidade do trabalho"? Será que a mudança no sistema, pura e simples, acabará com todos os outros problemas presentes na sociedade, com todos os preconceitos que há séculos vem oprimindo e matando as pessoas que estão na base dessa sociedade?
Além disso, uma questão central é: as mulheres negras devem “esperar” (na ativa como sempre estiveram, é claro) por uma revolução, para daí poderem ver suas questões sendo pautadas na política?
O problema da propriedade (Rousseau e Marx)
Qual a origem do problema? A partir de Rousseau, por exemplo, podemos pensar, numa perspectiva, que o problema se origina no momento em que alguém cerca um pedaço de terra e diz que é seu e acha pessoas “ingênuas” o suficiente para aceitar.
Estamos falando aqui de uma hipótese apresentada por Rousseau no Segundo Discurso, onde há uma problemática em torno da origem e dos fundamentos da desigualdade, não numa desigualdade física ou algo do tipo, mas uma desigualdade de “situação”, ou seja, na situação em que os indivíduos se encontram, poderíamos pensar.
O "poder" do indivíduo sobre a terra é legitimado por meio do trabalho, por meio do empenho dele para produzir, fazer a terra gerar frutos, porém, na modernidade capitalista, o que ocorre é que os “donos de terra” tornam-se "proprietários", mas pelo empenho de outras pessoas e não o deles mesmo. A fórmula se repete nas indústrias, onde os "donos" das indústrias exploram a força de trabalho dos operários para gerar lucro.
União: "erguendo-nos enquanto subimos"
A partir desses questionamentos, de uma análise da sociedade moderna, podemos ser levados a pensar que todo o problema da classe trabalhadora se encontra na forma como a sociedade moderna produz. Entretanto, de lá para cá, as coisas se tornaram muito mais complexas, a escravidão de pessoas negras na "modernidade" demarca uma nova questão que perpetua até hoje.
Ainda hoje o que se percebe é que as pessoas negras (analisando o Brasil por exemplo) constituem a maior parte da classe trabalhadora, já por aí podemos estabelecer que a luta que não leva o racismo em consideração está pensando não a classe trabalhadora, mas apenas uma parte dela.
Outra questão é a situação das mulheres negras, que constituem grande maioria dos empregos informais ou de trabalho reprodutivo (desvalorizado). Davis indica um caminho, que seria o empoderamento, uma perspectiva que pensa em elevar as pessoas oprimidas, colocá-las no fronte de batalha contra o atual modelo de sociedade (não quer dizer que atualmente essas pessoas não estejam lutando, mas que não tem sido respeitadas enquanto propositoras de pautas no engajamento político). E nessa luta se alinham diversas perspectivas, que representam (permitem a identificação) muitas pessoas que antes estavam marginalizadas na sociedade.
"Consubstancialidade" das opressões, interseccionalidade na luta
Colocamos nesses termos para pensar a questão: se uma mulher negra de periferia sofre todas essas opressões, de exploração do trabalho, de silenciamento, de violência, etc. por que ela se sentiria contemplada ou movida a se engajar numa luta simplesmente contra o modelo de exploração capitalista? Acabando com o capitalismo, acabaria com todas essas opressões que ela sofre?
O que parece é que, se as opressões vem "consubstanciadas", as lutas tem que se unir; interseccionalidade significa a percepção do entrecruzamento das lutas, que em certa perspectiva todas as pessoas oprimidas lutam para superar uma "mesma" coisa, a saber, a situação de opressão.
Então não faz sentido reduzir a luta simplesmente à categoria do trabalho. Quando pensamos que a identidade é importante para o engajamento, pensamos que qualquer pessoa que se encontra numa situação "desconfortável" (situação de opressão) no âmbito social pode se ver na luta contra o sistema, na luta contra o atual modelo de sociedade. Parece que essa perspectiva permite incluir mais pessoas, abrir possibilidades para mais vozes agregarem perspectivas, posições, para a construção de um novo modelo de sociedade.
Luta anticapitalista a partir de uma perspectiva identitária
Quando falamos em identidade, no sentido político, é tanto a identidade coletiva (perspectiva identitária), da classe, de um pertencimento a um grupo, quanto de uma esfera mais individual, do se ver no outro, se ver representado.
Pensemos na situação atual, será que 57 milhões de Brasileiros/as se vê no governo que elegeu, se enxerga consonantes as decisões tomadas por esse governo? Sinceramente não vejo resposta pra isso, pois parece evidente que atualmente não temos espaços de construção coletiva, onde as pessoas podem expressar suas vozes; não querendo ser injusto com alguns grupos que conseguem proporcionar esse tipo de experiência, mas partindo do que se mostra na realidade.
Os poucos espaços que existem são muito "independentes", agem muito de maneira unilateral. Assim, pensar a nossa identidade é também pensar locais políticos de discussão, de possibilidades de agregar mais vozes para a construção de uma luta, de um curso comum da ação.
Primeiro precisamos nos ver nesses lugares, saber que nossas vozes são escutadas e que as pessoas estão dispostas a dialogar algumas questões que precisam ser postas à mesa. Não parece viável de maneira alguma construir uma luta que exclua a luta anti racista, que exclua as mulheres, LGBTs, pessoas com deficiência, idosos, etc.
A construção deve levar em conta as necessidades coletivas para pensar um curso comum de ação, para pensar a viabilidade de mudanças na esfera social. É por isso que a identidade é importante para a política!

Excelente reflexão!
ResponderExcluirObrigado, Rafael. Espero estar contribuindo para avanços na discussão destes temas!
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