Porvir


Dei um grito.

Rompante.

O homem olhou para trás,

abismei. Pedi desculpas.


Ouvi alguém comentando baixinho

que era capaz de eu estar

num mundo à parte.


Meus olhos correram lágrimas

e meu coração começou a desacelerar,

apesar

de eu ainda estar

ofegante. No horizonte,

as restelhas de sol tingiam

as nuvens de um rosa

profundo.


O homem apertou os lábios e abaixou a cabeça,

como se dizendo que entendia

minha situação, quando constatou-se

do meu abismo. Eu podia jurar que ouvi aquele sujeito,

que se colocara novamente em contemplação,

com uma latinha de cerveja à meia altura

na mão esquerda, dizer

pobre.


Não senti pena de mim,

apenas entendi que era capaz

de eu nunca mais

ver sombra de Almiro.


O velho ditado dizia:

quem fica morre na areia,

quem vai não se arrepende.


Talvez eu devesse ter escolhido também

partir. 

se escolhas

houvesse


As pessoas que deram atenção não perduraram,

seguiam contemplando o horizonte.

Nem eram tantas, mas o suficiente

para encher uma balsa pequena

se ainda tivesse alguma chance.


Acontece que a última balsa

já tinha partido e nós,

os que sobraram ali, apesar de ter

a cidade inteira a nossa disposição,

naquele momento não

nos mexíamos.


Uma velha sentada numa toalha

vermelha me encarava.

Acenou me aproximasse.

Caminhei alguns passos,

ela começou a falar.


Quem seu partiu?

Marido meu.

Mais novo?

Acenei com a cabeça.

É… é dos jovens que o futuro precisa.

Tente ver assim: foi embora seu amor,

virá mais logo um mundo inteiro.

Sorri de modo forçado.


Não havia

comemorar.


Se por um lado,

futuro tinha,

quando a balsa sumisse

no lá bem longe


nós: os desiludidos

os sem-futuro.


A nós, restou só

a praga

o castigo

as almas descaradas.


Almiro há de lembrar

de mim,

há de nomear outros seres

vivos

com nomes meus

usar aquele medalhão

presente meu

brindar um futuro

onde não pude

viver.


As dores da minha alma.


Ah, se naquele tempo passado

houvesse remédio

ao menos retardo

dos males do meu sangue

o menor. Ter morrido no passado,

ter vivido.


Como aqueles que não puderam entrar numa balsa.



Paulo Zan, janeiro de 2022.


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