A CORDIALIDADE BRASILEIRA ENQUANTO PROBLEMA MORAL E POLÍTICO



A CORDIALIDADE BRASILEIRA ENQUANTO PROBLEMA MORAL E POLÍTICO 

Paulo A. T. Freire (Filosofia UFBA, PET-Filosofia)


Quem sabe dos meus interesses por problemas morais e está a par do meu projeto de superação moral da sociedade contemporânea do século XXI (utilitarista), pode compreender de maneira mais fácil o porquê da minha preocupação com a “cordialidade brasileira”, mas de forma alguma as pessoas que se encontram fora deste grupo estão prejudicadas na leitura acerca disso. Para assegurar e deixar isso de maneira mais explícita, posso dizer que de maneira geral o problema que surge é em relação à hipocrisia. Isso quer dizer somente que concordo com Sérgio Buarque de Holanda quando ele coloca as nossas relações cordiais como hipócritas, como relações que mascaram os conflitos e os problemas sócio-políticos-culturais da realidade brasileira, como, por exemplo, o racismo.

O patriarcalismo é uma marca da cordialidade brasileira, pois a base da brasilidade está na família patriarcal, onde o progenitor é quem dita as regras. Isso significa que os demais membros da família apenas seguem os ditames impostos por ele, além de que isso é transposto em certa medida para as relações de trabalho no contexto nacional. O que acontece não pode ser “generalizado”, ao mesmo tempo em que não quer dizer que não é algo geral, trata-se de um tipo de relação social, em que o modelo familiar é forçosamente transposto para a dinâmica social, se opondo a este tipo de “racionalidade”, Sérgio Buarque de Holanda (2012) afirma que “O Estado não é uma ampliação do círculo familiar e, ainda menos, uma integração de certos agrupamentos, de certas vontades particularistas, de que a família é o melhor exemplo”, estabelecendo uma oposição entre o círculo familiar e o Estado.

O homem cordial usa de uma polidez, de afetos e cuidados no trato com os demais para mascarar os conflitos sociais, máscara que “cai” quando este se sente ameaçado, passando a revelar sua face agressiva e violenta naqueles momentos. Isso acontece porque a cordialidade não é a polidez no sentido de ser educado com os outros por estar inserido num contexto social e que essas relações exigem respeito mútuo; a cordialidade é mera aparência, não exprime o que o sujeito é de fato, por isso é uma hipocrisia, um fingir-ser. A exemplo disso está a nostalgia com que Gilberto Freyre fala da escravidão, como se essa tivesse sido “mais amena” no contexto brasileiro e até benéfica para as pessoas escravizadas e seus descendentes, esse pensamento reflete uma ideologia hipócrita no sentido de estar descolada da realidade, pois cria  uma “aparência” e a trata como se fosse a própria realidade.

O sentido dúbio dessa cordialidade é expresso também na língua, pois o uso do diminutivo pode servir tanto para aproximar as pessoas (como se fossem todas da mesma “família”), quanto para amenizar situações, por exemplo quando nos negamos a pagar por um estacionamento alegando que vamos ficar só alguns minutinhos, etc. Na religião isso se expressa com a familiarização dos santos, a exemplo da Santa Teresa de Lisieux, que no contexto “cordial” brasileiro é conhecida como Santa Teresinha, tornando-se algo mais íntimo, mas também outro tipo de relações com santos, como a prática de colocar o Santo Antônio de cabeça para baixo para conseguir casamento, dentre outras coisas.

A cordialidade brasileira reflete também um pouco do patrimonialismo, ou seja, uma confusão acerca do que é público e o que é privado. Isso possibilita por exemplo, a expansão da corrupção; e o uso de privilégios para ter que se esforçar menos para conseguir as coisas, como furar filas quando conhece alguém do departamento, etc.

A cordialidade se expressa como uma “moral” no sentido de que dita certo modo de agir em relação aos demais dentro da sociedade. E sendo uma moral, é uma moral dos afetos, pois usa desse meio para disfarçar o que se é, pois como bem expressou Sérgio Buarque de Holanda (2012), 

No “homem cordial”, a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência.

O que essas questões acerca da cordialidade nos fornecem são vias e possibilidades para pensarmos o Brasil e como nos situamos contemporaneamente em relação aos problemas que persistem hoje como o racismo estrutural e o machismo circunscritos em nossa dimensão social. A questão seria, continuamos “cordiais” em relação a essas questões ou já estamos debatendo a partir do que se apresenta na realidade?


Referências


HOLANDA, Sérgio Buarque de. O homem cordial; seleção de Lilia Moritz Schwarcz. - 1ª ed. - São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.


Vídeo You Tube, Canal: Casa do Saber: SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA E A CORDIALIDADE BRASILEIRA | Paulo Niccoli Ramirez, link: https://www.youtube.com/watch?v=kFHAjybsk9o Acesso em: 06/06/2020

Comentários

  1. Excelente texto!
    Fico pensando na hipocrisia que se há na formação, no pilar da moral social. E penso no 'homem cordial' e como ele se liberta de si para não encarar sua própria verdade o tempo inteiro.

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  2. Ótima discussão pro teu projeto de superação moral.

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